ALDINA TREMOCEIRA – A FÚRIA DEMONÍACA!

Um dia destes encontrei a Aldina Tremoceira. Já não a via vai para aí uns 45 anos. A última vez que lhe pus a vista em cima lembro-me que ela tinha acabado de fechar a padaria transformada em tremoceira que herdara do Sifrónio dos Palitos, padeiro de profissão e cornudo nas horas vagas.

Está conservada, a Aldina. Pudera, depois dos cacetes e dos tremoços, que segundo ela já não rendiam nem a satisfaziam o suficiente, dedicou-se de alma e coração às conservas e abriu um estaminé para os lados do Alto de São João, bem pertinho do cemitério, onde para além das latinhas também vendia azeitonas, amendoins e pevides, mas nada de tremoços – ironia do destino, contava-me ela, já que a sua fama e nome tinham vindo precisamente do marisco do Eusébio, que ela mais tarde renegou por falta de lucro.

Fiquei a saber também, entre dois torresmos processados e duas São Domingos, que a Aldina fez o favor de oferecer, que mais um pseudónimo a providência divina se tinha encarregado de lhe atribuir: Fúria Demoníaca.

Por sorte ou azar, o destino encaminhou-a para o submundo lisboeta – nada aliás de extraordinário ou de espantoso, atendendo às credenciais que já evidenciava nesses tempos remotos… -, onde privou com a nata que se movia no underground da cidade e arredores, de proxenetas a políticos, de jornalistas a junkies, de arquitectos a taberneiros.

Mas, contrariando o pensamento perverso das mentes pérfidas dos poucos leitores que provavelmente lerão esta javardice de composição, Aldina não enveredou pelo caminho da prostituição, mas acabou sim por, paralelamente à sua actividade principal, desenvolver a sua faceta artística, muito por culpa do Tony Botões, diga-se, na arte da chuva dourada.

Tony, nos idos anos de 70, era já um conceituado estilista da plebe frequentadora de Arroios e zonas limítrofes, com carteira de clientes de duas folhas, onde pontuavam, entre outros, o Jacinto Gargarejo, conhecido pelos seus hábitos avant-garde de ingestão de líquidos menos ortodoxos. E foi precisamente no primeiro encontro entre Aldina e Gargarejo, organizado por Tony Botões, que a ligação se consumou e que a alcunha de Fúria Demoníaca começou a ganhar asas.

Entrementes, com o tempo a passar, e eu com a pressa de fugir da chuva demoníaca, não da dourada, mas sim da que caía das nuvens, vi-me na obrigação de apressar o final deste rendez-vous inesperado com a Aldina, mas não sem que ela antes me confidenciasse que depois do Jacinto Gargarejo a sua fama correu e depressa se espalhou além fronteiras, tendo atingido o seu auge da carreira quando hordas de sheiks do Iémen começaram a desaguar em Tires nos seus jatos privados. Houve tempos mesmo em que a Aldina seguia de volta com eles e passava grandes temporadas entre camelos e concubinas debaixo de canícula de 50º, ensinando a arte do bem mijar. O sucesso foi tanto que houve até um empresário que decidiu apostar no fabrico de queijos à base deste líquido.

Caía já a noite quando me consegui desenvencilhar da Aldina. Assim que me enfiei no 404, por entre os chuviscos, consegui vislumbrar as silhuetas inconfundíveis dos irmãos Picareta que se dirigiam a passo largo na direcção da “Fúria Demoníaca”. Os Picareta foram uns antigos calceteiros marítimos de profissão e traficantes de carne para canhão nas horas vagas, horas estas que na altura, diga-se, eram mais que muitas. Em tempos idos ambos tinham tido relacionamentos bipartidos, tripartidos e multipartidos, profissionais e carnais com a Aldina, mas ao que constava esta tinha capado um deles não se sabendo ao certo por que motivo.

Liguei o rádio e as luzes, acendi uma ganza e pisguei-me dali.

Duas semanas volvidas, apresentei-me num jantar de amigos de longa data organizado pelo Zé Chiburso no seu conceituado restaurante da Picheleira, onde marcou presença, entre outros, o Eufrázio, mais conhecido por Cutelo, antigo frequentador de vários antros menos aconselháveis do burgo e proprietário do Talho Mamonas, ali para os lados do Intendente. Tínhamos combinado um regabofe gastronómico e copofónico havia longa data, e esta foi a altura ideal para reunir a trupe. Do cardápio surgiram delícias requintadas à base de carne de porco e de proveniência certificada, trazidas pelo Chiburso do seu afamado talho, sempre bem regadas, é claro, por virtuosos elixires tintos.

A dada altura do repasto, trincava eu um saboroso pernil quando me deparo, estupefacto, com uma marca colorida bem visível, e até reconhecível, que me levou de imediato a regurgitar ½ quilo de carne arroxeada pela Barca Velha de 1896.

– Ó Chiburso, que merda é esta? – Atiro eu em alta voz.

– O quê?! – Grunha o seboso da ponta da mesa com a boca a escorrer gordura.

– Esta marca aqui neste pernil! Não dizias que isto era de porco preto?! – Arremesso eu.

– Foi o que o Cutelo me disse, ele é que trouxe a carne. Mas porquê, realmente não parece porco preto, antes porco velho, mas está bom! – Contrapõe ele.

E continua – Ó Cutelo, explica lá o que é que trouxeste para a gente comer. Parece que ali o artista está desconfiado…

– Epá, isto é carne de primeira qualidade, de proveniência certificada! – defende o Cutelo, engasgando-se logo de seguida quando emborcou uma golada de Pera Manca para despejar a bola de carne da boca para o tripanário.

– Mas que origem certificada, onde é que foste arranjar isto ó camurço?! – Urro eu.

– Foda-se pá, esta merda foi-me fornecida pelos irmãos Picareta! Paguei bom preço por isto, carne desta não há todos dias aí no mercado! – Remata o desgraçado.

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