E PORQUE É CARNAVAL…

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ASSÉDIO

Confesso aqui, sem pudores e sem medos, que também eu fui vítima de assédio. Teria na altura talvez uns seis anos, no entanto, só agora, no Outono da vida, compreendi a expressão que a Gina me lançava cada vez que passava de gelado na mão em frente à tabacaria onde ela trabalhava: “Deixa-me dar uma chupadela!”

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HORTELINDA COVAS

 

Conheci a Hortelinda Covas nos idos anos 70 do século passado, era já eu um marreta sexogenário e a dita cuja uma jovem robusta e mamalhuda, mestre na arte de cavar buracos.

Foi no funeral do meu bisavó paterno que cruzámos olhares. No momento em que eu despejava meia dúzia de calhaus na campa, a Hortelinda, que se preparava para terraplanar o buraco, tropeçou num fémur tresmalhado e foi direitinha ter com o meu bisavô, que decerto se ainda respirasse veria com bom agrado a companhia na sua última morada.

Anos mais tarde, voltaria a encontrá-la, mas tive dificuldade em reconhecê-la. Estava débil, bastante mais magra. Segundo me confidenciou, já tinha largado a profissão de coveira, isto depois de um episódio que a tinha deixado profundamente traumatizada.

Contou-me que meia dúzia de anos antes, num daqueles funerais cuja assistência se reduz ao próprio defunto, ao atirar a terceira pazada de terra para a cova, escorregou numa casca de mamão e lá foi ela novamente ter com o morto, tendo perdido os sentidos ao bater com a cornadura na urna. Ali ficou imobilizada durante várias horas, até que um colega seu ao passar no local já a noite ia cerrada, desconhecendo o triste incidente, finalizou o que a Hortelinda havia começado.

Quando veio a si, com dois metros de terra em cima e com a ampulheta pulmonar a esgotar-se, a adrenalina apoderou-se-lhe dos dedos e desatou a escarafunchar como as minhocas, tendo a muito custo atingido a superfície, isto no preciso momento em que voltou a desfalecer.

Acordou exactamente seis anos, dois meses, doze dias e cinco horas depois na cama de um hospital de Carrazeda de Sapatolas, terra para onde foi enviada, já em coma, quando foi resgatada do cemitério de Covas de Cangalhos, sua terra natal. E foi precisamente em Covas de Cangalhos, para onde regressou imediatamente assim que voltou a colocar firmemente um pé no chão, que a sorte lhe sorriu, e bem!

 

30 de Fevereiro de 2017. Saía eu do restaurante Retiro das Carcaças, onde estive a celebrar o meu 109º aniversário, quando um gigantesco buzinão, nunca inferior a 9.5 na escala de Tomázio, me fez rodopiar o pescoço 365º de forma a incidir a minha visão turva, não da idade, mas sim das duas bisnagas de tinto e dos dez decilitros de Adega Velha emborcados no regabofe comemorativo, numa fêmea que já se apeava apressadamente dum S63 AMG.

Para meu espanto, correu na minha direcção, agarrou-se ao meu pescoço e encheu-me de beijos, da orelha esquerda à narina direita, perante a estupefacção do séquito que me acompanhava e dos transeuntes. A surpresa tornou-se ainda maior quando, finalmente, consegui perscrutar por detrás dos betumes, silicones e botoxes a figura da recauchutada Hortelinda Covas, que sem muito esforço acabou por me raptar e atirar para dentro do Mercedes, pregando comigo numa penthouse do Sheraton.

Perante a minha estupefação, relativa a tanta opulência por parte de uma labrega coveira, a Hortelinda satisfez-me a curiosidade no outro dia de manhã, enquanto ao pequeno-almoço devorávamos um substancial repasto gourmet, composto de torradas com térmitas fumadas, paté de lombrigas ao natural, ovos triturados em cama de cardos e sumo de beldroega.

Contou-me ela que naquele longínquo dia em que regressou a Vale de Cangalhos, depois de recuperar do terrível acidente que a levou ao hospital, dirigiu-se ao cemitério da aldeia para visitar os residentes cativos, tal como fazia todos os dias, e ao passar junto da campa da Vitalina Gadanho foi encontrar o seu marido, o Policarpo Gadanho, prostrado e a derramar tantas lágrimas que até a terra em volta se tinha transformado num autêntico lamaceiro.

O Policarpo Gadanho em tempos idos era homem de posses e feitor numa quinta abastada da freguesia e tinha emigrado para a Polinésia Marroquina aquando da morte da esposa, segundo consta vítima de um terrível infortúnio. Esta, durante a lida da horta, teria tropeçado numa abóbora e caído de chapa em cima de um gadanho que lhe atravessou o corpo escanzelado. O homem, de acordo com as crónicas, não resistiu ao desgosto e pisgou-se de malas aviadas para bem longe. Teria regressado assaltado pela saudade da terra e da mulher mas, segundo a Hortelinda, tal deveu-se a outro sentimento: remorso. E ela sabia do que falava…

De facto, na continuação da sua história de vida, acabou por me confidenciar que se enrolou carnalmente, logo nesse dia, com o Policarpo e que ambos, dias mais tarde, rumaram à Polinésia Marroquina, onde o viúvo fez fortuna no comércio de caracoletas.

Estarrecido fiquei quando a Hortelinda, tremelica e com a voz sumida, me sussurrou ao ouvido que a Vitalina afinal não tinha morrido de acidente, mas que o Policarpo lhe tinha limpado o sebo com um gadanho e preparado astutamente a cena do crime de forma a parecer um acidente. Parece que a dita cuja andava a empalitá-lo com o Custódio Chifrudo havia muitos anos.

Mas o que arrebentou mesmo comigo foi o final, o remate da história, a parte em que Hortelinda confessou que tinha mandado o Policarpo para a paz dos anjos, ou para o calor do inferno, dependendo da perspectiva, numa dada noite em que o apanhou no fundo da estufa de morangos enrolado com a vendedora de pevides lá da zona. A arma do crime: um gadanho.

Alguns minutos mais tarde, poucos, entrava uma ambulância no parque do hotel Sheraton.

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QUIZ – QUEM É O DEFICIENTE?

Autocarro cheio. Quatros camafeus (dois machos e duas fêmeas), alienados, subjugados ao smartphone, ocupam os bancos reservados a grávidas, acompanhantes de crianças de colo e deficientes. Entra um senhor de idade, de muleta, com visível dificuldade em se segurar, olha piedosamente para o lugar que supostamente deveria estar destinado a si. Nada. Nem um movimento, um gesto, uma simulação, completo desprezo por parte dos usurpadores. No autocarro, pejado de almas, igualmente ausência total de acção do restante rebanho. De todo? Não! Uma ovelha tresmalhada resiste ainda e sempre ao invasor tecnológico provocador de demência! Urra lá do fundo: Ó meus filhos da mãe, não vêem uma pessoa a precisar de se sentar? Não há nenhum cabrão que seja capaz de levantar a peida?!

Quiz – Quem é/são o(s) deficiente(s)?

1 – Os quatro camafeus

2 – O senhor de idade de muleta

3 – O restante rebanho

4 – A ovelha tresmalhada

5 – Todos

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ALDINA TREMOCEIRA – A FÚRIA DEMONÍACA!

Um dia destes encontrei a Aldina Tremoceira. Já não a via vai para aí uns 45 anos. A última vez que lhe pus a vista em cima lembro-me que ela tinha acabado de fechar a padaria transformada em tremoceira que herdara do Sifrónio dos Palitos, padeiro de profissão e cornudo nas horas vagas.

Está conservada, a Aldina. Pudera, depois dos cacetes e dos tremoços, que segundo ela já não rendiam nem a satisfaziam o suficiente, dedicou-se de alma e coração às conservas e abriu um estaminé para os lados do Alto de São João, bem pertinho do cemitério, onde para além das latinhas também vendia azeitonas, amendoins e pevides, mas nada de tremoços – ironia do destino, contava-me ela, já que a sua fama e nome tinham vindo precisamente do marisco do Eusébio, que ela mais tarde renegou por falta de lucro.

Fiquei a saber também, entre dois torresmos processados e duas São Domingos, que a Aldina fez o favor de oferecer, que mais um pseudónimo a providência divina se tinha encarregado de lhe atribuir: Fúria Demoníaca.

Por sorte ou azar, o destino encaminhou-a para o submundo lisboeta – nada aliás de extraordinário ou de espantoso, atendendo às credenciais que já evidenciava nesses tempos remotos… -, onde privou com a nata que se movia no underground da cidade e arredores, de proxenetas a políticos, de jornalistas a junkies, de arquitectos a taberneiros.

Mas, contrariando o pensamento perverso das mentes pérfidas dos poucos leitores que provavelmente lerão esta javardice de composição, Aldina não enveredou pelo caminho da prostituição, mas acabou sim por, paralelamente à sua actividade principal, desenvolver a sua faceta artística, muito por culpa do Tony Botões, diga-se, na arte da chuva dourada.

Tony, nos idos anos de 70, era já um conceituado estilista da plebe frequentadora de Arroios e zonas limítrofes, com carteira de clientes de duas folhas, onde pontuavam, entre outros, o Jacinto Gargarejo, conhecido pelos seus hábitos avant-garde de ingestão de líquidos menos ortodoxos. E foi precisamente no primeiro encontro entre Aldina e Gargarejo, organizado por Tony Botões, que a ligação se consumou e que a alcunha de Fúria Demoníaca começou a ganhar asas.

Entrementes, com o tempo a passar, e eu com a pressa de fugir da chuva demoníaca, não da dourada, mas sim da que caía das nuvens, vi-me na obrigação de apressar o final deste rendez-vous inesperado com a Aldina, mas não sem que ela antes me confidenciasse que depois do Jacinto Gargarejo a sua fama correu e depressa se espalhou além fronteiras, tendo atingido o seu auge da carreira quando hordas de sheiks do Iémen começaram a desaguar em Tires nos seus jatos privados. Houve tempos mesmo em que a Aldina seguia de volta com eles e passava grandes temporadas entre camelos e concubinas debaixo de canícula de 50º, ensinando a arte do bem mijar. O sucesso foi tanto que houve até um empresário que decidiu apostar no fabrico de queijos à base deste líquido.

Caía já a noite quando me consegui desenvencilhar da Aldina. Assim que me enfiei no 404, por entre os chuviscos, consegui vislumbrar as silhuetas inconfundíveis dos irmãos Picareta que se dirigiam a passo largo na direcção da “Fúria Demoníaca”. Os Picareta foram uns antigos calceteiros marítimos de profissão e traficantes de carne para canhão nas horas vagas, horas estas que na altura, diga-se, eram mais que muitas. Em tempos idos ambos tinham tido relacionamentos bipartidos, tripartidos e multipartidos, profissionais e carnais com a Aldina, mas ao que constava esta tinha capado um deles não se sabendo ao certo por que motivo.

Liguei o rádio e as luzes, acendi uma ganza e pisguei-me dali.

Duas semanas volvidas, apresentei-me num jantar de amigos de longa data organizado pelo Zé Chiburso no seu conceituado restaurante da Picheleira, onde marcou presença, entre outros, o Eufrázio, mais conhecido por Cutelo, antigo frequentador de vários antros menos aconselháveis do burgo e proprietário do Talho Mamonas, ali para os lados do Intendente. Tínhamos combinado um regabofe gastronómico e copofónico havia longa data, e esta foi a altura ideal para reunir a trupe. Do cardápio surgiram delícias requintadas à base de carne de porco e de proveniência certificada, trazidas pelo Chiburso do seu afamado talho, sempre bem regadas, é claro, por virtuosos elixires tintos.

A dada altura do repasto, trincava eu um saboroso pernil quando me deparo, estupefacto, com uma marca colorida bem visível, e até reconhecível, que me levou de imediato a regurgitar ½ quilo de carne arroxeada pela Barca Velha de 1896.

– Ó Chiburso, que merda é esta? – Atiro eu em alta voz.

– O quê?! – Grunha o seboso da ponta da mesa com a boca a escorrer gordura.

– Esta marca aqui neste pernil! Não dizias que isto era de porco preto?! – Arremesso eu.

– Foi o que o Cutelo me disse, ele é que trouxe a carne. Mas porquê, realmente não parece porco preto, antes porco velho, mas está bom! – Contrapõe ele.

E continua – Ó Cutelo, explica lá o que é que trouxeste para a gente comer. Parece que ali o artista está desconfiado…

– Epá, isto é carne de primeira qualidade, de proveniência certificada! – defende o Cutelo, engasgando-se logo de seguida quando emborcou uma golada de Pera Manca para despejar a bola de carne da boca para o tripanário.

– Mas que origem certificada, onde é que foste arranjar isto ó camurço?! – Urro eu.

– Foda-se pá, esta merda foi-me fornecida pelos irmãos Picareta! Paguei bom preço por isto, carne desta não há todos dias aí no mercado! – Remata o desgraçado.

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